Que mais dizer sobre estes trabalhos? Que são contemporâneos? Sim. Que são intensamente poéticos? Sim. Que dialogam com a história? Sim. Que contribuem para a arte? Sim. Mas, tão importante quanto tudo isso, e mais importante para mim, neste iluminado momento, é olhar e sentir: ouvir a música que brota destas pinturas, ver a pintura que nasce dessas melodias.

— Sérgio Nunes

Texto-Se-rgioEstou diante dos trabalhos que Mário Arreguy agora desenvolve, e que denomina REPINTURAS.

Esqueço este nome e apenas olho, observo, relaxamente e com atenção. Sinto o prazer que me trazem.

Agora estou diante de um desses trabalhos, uma pequena, preciosa tela de 20×30 cm, cujo tom geral é um amarelo de .nápoles – limpo, sereno, plashco por si só. Sobre este tom, algumas colagens, interferências, superposições. marcas, pontuações movimentam o plano pictórico e dirigem o meu olhar. Relaxo com maior profundidade. Mais urna vez experimento o prazer que me traz esta pintura – íntima, despojada, calma, lírica. Agora reparo que as colagens e interferências são signos que fun­cionam também como elementos plásticos: a colagem á esquerda mostra algumas árvores. Depois dela vem um grande “X” desenhado a grafite. Depois, dois fragmentos de papel – um vermelho, outro violeta formarn um ângulo reto.

Sobre o vermelho, uma fina folha transparente muda parte de seu tom para um rosa palido. A segurar, há trás linhas ver­ticais paralelas – também a grafite – e, por fim, quase na margem direita, uma pequena escala numerada Esta sequência funciona como um acorde de grande beleza plástica – movimento característico da pintura deste artista. Abaixo, a tela é dividida (a quase dois terços de sua altura por uma barra horizontal, composta por restos de papéis de cigarros consumi­dos – e estendidos, como faziam os cubistas – e, abaixo desta barra, outros elementosIacordes completam a composição: colagens de panos e papéis que, além de cantarem por si próprios, fazem delicados contrapontos com os acordes do plano superior. A pintura como um todo emana uma suave e penetrante melodia.

Perceber o que há de plástico em uma composição musical, perceber o que há de musical em uma composição plás­tica. Estes trabalhos de Mário Arreguy falam sobre isso e cantam harmonias diversas. E tudo que cantam é belo. Podem referir-se ao tempo, à cartografia, aos tetos das igrejas barrocas entranhados em nossa memória, à pintura contemporânea, á natureza, aos fragmentos perdidos, aos documentos, à história. E tudo isto importa. Mas tudo isto perderia sentido se não fosse o valor de elaboração da pintura em si, pintura musical que Mário conhece e domina com todo o seu talento.

Que mais dizer sobre estes trabalhos? Que são contemporâneos? Sim. Que são intensamente poéticos? Sim. Que dialogam com a história? Sim. Que contribuem para a arte? Sim. Mas, tão importante quanto tudo isso, e mais importante para mim, neste iluminado momento, é olhar e sentir: ouvir a música que brota destas pinturas, ver a pintura que nasce dessas melodias. E então eu recordo e entendo a denominação dada pelo artista aos trabalhos desta exposição: repinturas: camadas de ressonâncias harmônicas, acordes plásticos, contrapontos.

 

 

 

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