Pintura não é possível, não tem jeito. Com essa frase, lembrando Clarice Lispector e a escrita, Mário, em seu ateliê, dá prosseguimento a nossa longa conversa, que já dura muitos anos, em que vamos aprendendo com ele um pouco sobre a arte e o fazer do artista

— Elisa Arreguy Maia

Pint50x602004A pintura da erosão

 

Mário vai juntando coisas desiguais, coisas díspares, técnicas que não se misturam na criação do corpo não mais possível da pintura. O impossível de pintar. Ele junta restos, cacos, guarda coisas velhas que não servem para nada nem para ninguém. Cada quadro é composto com esses restos, cacarecos, pedaços. Não resta dúvida, cada um busca a liberdade rara. Sua obra, ao longo dos anos somos testemunhas disso, insiste no caos, na não-forma, na intensidade que brota na lida com a cor – experimentação da cor – para daí ir encontrando (ele não procura) uma ordem que vê brotar, uma forma que se insinua, que se apresenta. “Não tem mais o que dizer do signo, da desconstrução, do sentido, do tempo. Falar o quê?” A interrogação do artista, sua perplexidade diante do beco sem saída do pós-tudo, nos deixa frente a frente com essa força que o impulsiona a fazer o que ele sabe impossível. É mesmo isso que nos transporta ao seio de uma verdade simples, uma verdade que descompleta seu saber sobre a pintura: sem arrogância, a partir de uma prática que se renova e se impõe para além das vogas, das modas, das igrejas da “instituição arte”, imerso no seio da erosão do sentido da (sua) arte, ele pinta.

Então, o silêncio. Ficam as volutas de um barroco desfeito. Flor, florão, pingo, respingo, repinturas. Amostras, colagens sobre pinturas. Cor sobre colagem. Impressão e sobreimpressão. Padrões arbitrários, reunião de diferentes. Em toda parte, a insistência da beleza no gesto que, do fundo das ruínas da história, resiste. No jarro, na concha, nos arabescos, na palma, nas letras que já não escrevem senão pintura.

“Só os que desistem conseguem”, ele lembra Macário. E, este que já não quer mais pintar, este que pensava que não pintaria mais, que não seria mais pintor e que passa horas e horas de trabalho na solidão de um ateliê, Mário Macário, humilde diante do que não sabe, pinta. Obreiro do seu fazer. E cada um que encontra um quadro seu pode dizer, “ah, é um mário arreguy”, e, eventualmente, viver um instante de alumbramento diante da erosão que ele juntou.

 

 

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