Olívio Tavares de Araújo

Os desenhos, pinturas, mapas de Mário Arreguy, feitos por camadas sucessivas de cor e transparência, parecem palimpsestos das vivências visuais do artista.

— Olívio Tavares de Araújo

TextoOli?vioEm julho de 1987, conheci pessoalmente, no Festival de Inverno em São João Del Rey, um grupo de jovens artistas mineiros cujas obras eu já vinha encontrando, àquela altura, ao longo de uns dois anos, em salões do eixo Leste/Sul. Entre outros, lá estavam Giovana Martins, Jimmy Leroy, Mário Arreguy, Sérgio Nunes, Paulo Schmidt, Ricardo Homem e Leonardo Maciel. Todos participaram, a seguir, de exposições das quais me coube a curadoria. Os quatro primeiros (mais Paulo Amaral e Isaura Penna), de uma pequena coletiva em São paulo, em setembro de 87, no Espaço La Maison. Os quatro últimos (mais Marconi Drummond Lage e Shirley Paes Leme, além de 21 outros artistas não mineiros), da parte brasileira da mostra Novos Valores da Arte-Latino-Americana, em agosto de 89, no 2° Festival Latino-Americano de Arte e Cultura (FLAAC), em Brasília. Jimmy e Sérgio, Finalmente, expuseram juntos, a meu convite, em setembro de 88, na Galeria Documenta. (SP).

Essas informações, digamos, históricas revelam de salda não só minha empatia pelas obras de todos eles (se não, não os teria convidado), mas também a trajetória segura e assentada na qual esse grupo se move há já um bom tempo. Quando os conheci, faziam, quase todos, arte abstrata (a exceção era Leonardo Maciel), demarcando o ressurgimento dessa linguagem em Minas, talvez sob a inspiração fecundadora da presença de Amilcar de Castro, de volta a seu estado; e, predominantemente, uma abstração lírica, informal, gestual (a exceção era o construtivista Paulo Schmidt), quase caligráfica, precisa, de extrema elegância, e plenamente consciente de seu voluntário poder de sedução. Denominei-os, num texto da época, a “nova abstração” mineira. Por outro lado, elegância e sedução não significavam facilitação nem concessões de gosto, e nesse grupo não ocorria (graças a Deus!) o que Frederico Morais, também num texto da época, mas referindo-se a outro contexto, chamava de “o abminável tachismo de volta”.

Já naquele momento, Mário Arreguy se distinguia por duas características de seu estilo: primeiro, os balanços cromáticos sutis em cada quadro, nos quais havia muitíssimos matizes e um fazer elaborado, mas dominava sempre uma determinada cor. Comparado à maioria dos companheiros (exceção: Sérgios Nunes), ele era mais econômico, até mesmo mais sóbrio. Segundo (pelas estruturas) perceptíveis no desenho, a vontade de forma, a composição subjacente ao jogo de manchas, o que impedia de se tornar caligráfico. Não acompanhei de perto sua evolução nos ultimíssimos anos, mas não me surpreende nem um pouco encontrá-los, agora, às voltas com trabalhos figurativos, desenhados e pintados sobre mapas, os quais se tornaram as mágicas chaves para o acesso a um reino de poesia delicada e algo misteriosa.

Não me surpreende porque, evidentemente, não se trata, a rigor, de uma arte figurativa descritiva, temática, mimética, fundada na contemplação e reelaboração da realidade exterior imediata. Os mapas de que se serve Mário são apenas pretextos para um acontecimento plástico em si, no espaço da tela ou do papel. O fenômeno pictórico permanece abstrato em sua essência, e Mário permanece fiel a si mesmo e às superfícies de cor livremente estruturadas das fases mais antigas. Aqui, mais uma vez, como em toda arte verdadeira, o autor não “reproduz o visível”, e sim “torna visível”, como preconizava Paul Klee. Por outro lado parece-me haver na escolha do mapa como pretexto um certo fascínio, uma certa nostalgia indefinida, meio vaga, de quem (se?) procura, remexendo nas rotas que lhe foram legadas pelo passado. Os desenhos/pinturas/mapas de Mário Arreguy, feitos por camadas sucessivas de cor e transparência, parecem palimpsestos das vivências visuais do artista.

E enfim estarei fantasiando, num exercício de wishful thinking, ou há ainda, nítida mineriridade em tudo isso? “Espirito de Minas, me visita”, invocava Drummond na Prece de Mineiro no Rio, e “abre um portulano ante meus olhos que a teu profundo mar conduza, Minas”… é coisa de mineiro, isso, a escolha dessa metáfora e a necessidade de descortinar e mapear novas terras, ares e mares, reais ou simbólicos. Os mapas de Mário Arreguy – mesmo que ele não o tenha pensado ou definido conscientemente como meta – são também, pois a afirmação de uma identidade cultural na qual ele, por força, está inscrito.

Para terminar, saúdo, aqui a continuidade do trabalho de um artista ao mesmo tempo ainda jovem (a meio caminho na casa dos 30 anos) e maduro, do alto de sua experiência. Na plena posse de todos os recursos expressivos. Mário Arreguy dá aqui, com clareza, seu recado. Mais Credencia-se entre os melhores representantes de sua geração, à qual não faltaram nem talento nem dedicação, e à qual devemos um sopro de renovação vital nas artes plásticas de Minas dos fins dos anos 80 para cá.

 

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