Moacyr Laterza

— Moacyr Laterza

Texto MoacyrO filósofo Moacyr Laterza e seus artistas favoritos (3/1999)

ESTADO DE MINAS – Neste curso, o senhor vai falar da arte e do mundo, em diálogo com artistas mineiros. Como avalia a produção de Minas Gerais?

Moacyr Laterza – Sem nenhum favor, Minas está up to date, em dia com os movimentos estéticos mais importantes do mundo. Por isso convidei artistas mineiros para, em seminário, debaterem com os alunos. Eles trazem a sua documentação e sua presença, seus acertos e descaminhos. 0 clima é de diálogo. Fala o público, falam os artistas e, principalmente, falam as obras.

EM – Por que trazer o artista para a centro da roda, para falar de viva voz?

Laterza – A presença fisica é fundamental. 0 artista passa sua pessoalidade, não a sua personalidade. A presença da pessoa do artista traz valores diferentes do estéti- co, que correspondem à sua vida, a sua vivência mineira. Uma das características da criatividade contemporânea é o intercâmbio entre vários valores, além dos estéticos: morais, politicos, religiosos, mágicos, culturais. Entre estes valores correspondem aqueles que significam um testemunho da história mineira. E através de uma atenção minuciosa ao pessoal e ao regional que nós podemos surpreender as conexões com o global.

EM – A globalização não é um perigo para a arte?

Laterza – Há uma tendência à globalização que é perigosa. Se for apenas uma cópia, uma repetição, o global se transforma em sinônimo .de massificação. A atenção acurada ao que é original em termos de pessoa, de tradição e técnicas inventivas, resgata do perigo da massificação globalizante. Nosso convidado artista não leva apenas sua arte e suas conexões internacionais. Leva também um jargão, uma gíria, uma entonação, um timbre, alguns sons harmônicos de sua alma. Isto não entra na Internet, que jamais substituirá o calor humano, que é o diálogo.

EM – Que artistas mineiros o senhor destaca no curso?

Laterza – Citar é sempre perigoso, porque deixa de fora muitas pessoas e obras importantes. 0 casal Bracher, por exemplo, faz conviver, no mesmo momento histórico, várias consciências artísticas. Na rua do Carmo, no mesmo lar, coexistem afetiva e artisticamente, Carlos e Fany Bracher. Carlos, herdeiro dos modernos e neomodernos, Fany, mais afeita aos experimentos pós-modernos. Há ainda as instalações de Zé Bento, as obras de Benjamim, Niúra Belavinha, Eymard Brandão, Mônica Sartori, Rivane Neuschewander, Mário Arreguy e toda esta critividade mineira, que faz papel artesanal, por exemplo. Assim, em BH, no momento de um novo renascimento, o passado em arte se alterna com as brumas do futuro, com seu sentido de ruptura. Por isso o curso aponta para o sabor do futuro. Mas com muito cuidado. Não há nada mais velho do que a vontade de ser novo.

EM – Quais são os novos valores da arte hoje?

Laterza – Um certo gosto pela frugalidade, pela simplicidade, que era afogado por uma espécie de esteticismo. Numa das entradas da última Bienal de São Paulo, por exemplo, uma mulher fez uma lindissima obra que era fabricar rosquinhas. Muitos metros delas, valorizando o gesto mais trivial de minha avó, que era fazer rosquinhas, biscoitos. 0 número, a dimensão, era uma ênfase sobre a grandeza de gestos tão íntimos, domésticos e quentes como o de comer biscoitos.

EM – Neste contexto, o que é o belo?

Laterza – 0 meu conceito de belo evolui do estético para o ético. E o belo moral. A mão da minha mãe é linda, com todos os sinais de senilidade que ela traz. Porque é dignidade, labor, seriedade – as mãos de uma mulher forte. Isto a arte consagra hoje. A eternidade e o absoluto correm nas artérias do tempo. A eternidade não está lá, no éter galáxico, está entre nós. Sou capaz de consagrar tudo através da simplicidade.

EM – Mas há também uma certa tendência para a arte complexa, cheia de referências eruditas, muito distante do dia-a-dia

Laterza – Sim e, neste caso, ela se manifesta como misteriosidade, labirinto – esta figura emblemática do contemporâneo. Se a voluta era a forma do Barroco, a circunferência era o Clássico, a imagem de hoje é o labirinto. 0 primeiro artista pós-moderno, em uma outra área, se chama Jorge Luis Borges, que tem uma obsessão pelo labirinto. Impasse, aporia, beco-sem-saída: este é o nosso destino cotidiano, na politica, sexualidade, na economia.

EM – Como fica a arte em um mundo labiríntico?

Laterza – Fica misteriosa, labiríntica. Ela não fica mentirosamente canônica, certinha, transparente. Como disse com inteligência a profesora Higina Bruzzi, “as transparências enganam”. É uma frase linda.

EM – A morte é hoje uma referência no mundo e na arte.

Laterza – É moda brincar com a morte. Há um certo estado necrofilico, que lembra o gótico tardio. Veja, neste sentido, a atualidade de Kafka. A morte faz sucesso porque encontra uma ressonância na consciência do homem atual, daí o sucesso de obras góticas como os filmes de Bergman, “0 Nome da Rosa” e outras manifestações. A morte nos visita individual, social e coletivamente. Nosso ser vive para a morte. Há uma consciência que procura nossa nostalgia fundamental de seres condenados à vida e à morte, que alimenta internamente

a argúcia artística. Mas, como disse Picasso, na arte como na vida, a constatação da decadência ainda é um ato de fé. 0 artista não se rende à morte. Ele diz, como. São Paulo: ‘Morte, onde está tua vitória?’. Isto aparece em obras que não se furtam à decadência, à memória de tempos idos. Como os trabalhos de Mário Arreguy, que abriu esta semana uma exposição em Tira-dentes. Ele recupera elementos esquecidos, esmaecidos e corrompidos pelo passar do tempo, tecendo sobre eles uma linguagem, avivando a memória.

EM – Qual o papel do artista e do filósofo?

Laterza – 0 artista, como Tirésias, este advinho cego das tragédias gregas, antecipa, prenuncia, advinha, mesmo que não enxergue o resultado de suas antevisões. 0 artista é sempre divinatório. Já o filósofo, como disse Hegel, é como o pássaro de Minerva, que só voa depois do acontecido. 0 filósofo evidencia obviedades que o artista antecipou e muitas vezes não percebeu, em seu estado de possessão.

EM – Partindo para os cursos informais, como o senhor vê a universidade hoje?

Laterza – Não quero falar mal dela porque tenho saudades. Na minha provectude, recebi uma visita de Dioniso. Seja por nostalgia ou desespero, eu tenho saudade do informal da escola. Do laboratório de estética, da cantina, dos encontros nos corredores. A lógica da escola não esgota o logos da educação. Cada vez mais tem sentido uma educação informal. Nesta altura da vida, quero corromper a juventude, como Sócrates, enquanto aguardo minha dose de cicuta.

EM – 0 senhor falou de artes visuais, literatura, filosofia. E na música, quais são suas preferências?

Laterza – Tavinho Moura, Chico Buarque e sempre Caetano Veloso. Na música erudita sou mais antigo. Como descendente de italianos não consigo sair de Vivaldi. Meu filho está fazendo uma tese de doutorado sobre Vivaldi e padre Antônio Vieira, que eu não sei bem como vai ser.

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