Os trabalhos de MárioArreguy com resíduos serigráficos, os manuscritos, as partituras, os números, enfim, seu fascínio pelos fragmentos da memória, como os textos de missais setecentistas, interferências em objetos seculares, as sobras e os retalhos, trastes do passado..., tudo isto agora, e de forma incontestável, permeia a minha concepção do que possa ser designado obra de arte contemporânea

— Adriano Ramos

TextoAdrianoAdriano Ramos
do Grupo Oficina de Restauro

Em 1981, o trabalho de Mário Arreguy me foi apresentado por sua companheira Rô, a qual eu acabara de conhecer no IEPHA/MG e com quem iria dividir toda uma vida de trabalho, amizade e carinho.

Recordo-me plenamente das monotipias em vermelho e preto sobre fundo branco que me encantaram de imediato. Apesar de totalmente novas para o meu repertório artístico, fui tomado por aquele puro e precioso sentimento de empatia no primeiro contato com uma obra de arte.

Embora tenha freqüentado por um determinado período as aulas de pintura na Fundação de Arte de Ouro Preto, ministradas pelo saudoso Nello Nuno, e conhecido e admirado algumas obras de artistas importantes no cenário da arte moderna, devo confessar que esse universo da abstração pictórica até esse momento ainda não havia se instalado de forma ampla, geral e irrestrita em minha percepção. Longe estava a compreensão do objeto artístico como uma manifestação de nosso tempo, em que os símbolos e sinais nele reproduzidos não só representam o sentido estético do artista, mas também e, principalmente, a transcendentalização da sua alma ou da sua coletividade. Faltava-me, ainda, o domínio intelectual para entender – e de forma definitiva – a libertação da arte em relação ao espelhamento da natureza; para aceitar e absorver a desintegração das formas, e para comungar com as infinitas outras possibilidades plásticas expressas por meio do abstracionismo.

A convivência com MárioArreguy foi, portanto, crucial para me fazer perceber esses fatores recheados de imprecisões, destituições e experimentações que flutuam à frente do artista no processo de criação de uma obra de arte dessa natureza. 0 acompanhamento do seu trabalho e as reflexões suscitadas nas constantes visitas ao seu ateliê levaram-me a reconhecer e a admirar com mais intensidade obras de autores do porte de Kandinsky, Paul Klee e Jackson Polock.

Os trabalhos de MárioArreguy com resíduos serigráficos, os manuscritos, as partituras, os números, enfim, seu fascínio pelos fragmentos da memória, como os textos de missais setecentistas, interferências em objetos seculares, as sobras e os retalhos, trastes do passado…, tudo isto agora, e de forma incontestável, permeia a minha concepção do que possa ser designado obra de arte contemporânea, como esta série em exposição na galeria do BDMG Cultural. Obra marcada pelo vigor da composição, estruturada em equilíbrio e harmonia, ritmada nas colorações e traços próprios, produzida por quem domina e, muito, a técnica e os materiais empregados.

Hoje quem também se encanta com esse mundo composto por variados objetos é meu filho, Francisco, que, aos cinco anos, e a seu modo, é claro, mas junto com o amigo, desfruta de pedaços de lentes, tampas e ponteiros de relógios, rodas e volantes avulsos de carros perdidos, destroços de autoramas, botões de roupas, bolas coloridas de vidro etc., que Mário Arreguy, em sua trajetória de vida e sob sua perspectiva de artista, sempre coletou, emprestando a cada fragmento um sentido lúdico e de intensa magia.

Depoimento do restaurador

 

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