Papéis antigos colados e fotografias de lugares do passado, recortados, rasgados e colados ganham vida, essência e moldura totalmente novas com a assinatura do artista plástico Mário Arreguy,

— Tecris de Souza

 Retratos e fragmentos da memória

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Jornal Estado de Minas 22/03/1999

 

Papéis antigos colados e fotografias de lugares do passado, recortados, rasgados e colados ganham vida, essência e moldura totalmente novas com a assinatura do artista plástico Mário Arreguy, na exposição “Porta-Retratos”, em cartaz no Sobrado Ramalho, em Tiradentes. Ele, que já rasgou velhos mapas, agora recorre às fotografias com as ornamentações que emolduram as imagens em preto e branco das paisagens, da memória, munindo flores, rocalhas e detalhes que nos remetam também às igrejas decoradas no mais gracioso estilo rococó.

Foi transformando uma seqüência de lugares homenageados com a linguagem contemporânea que o artista se viu brindado pelo filósofo Moacir Laterza em seu discurso sobre a arte e a capacidade do autor de resistir à morte e revitalizar a memória sem se render à decadência. Nessa trajetória, na qual injeta vida nova em diversos objetos do passado, Mário Arreguy pensou nos ornamentos, “aqueles que os porta-retratos conferem a uma foto bonita, além de ser uma peça decorativa de valor afetivo imenso”.

Segundo o artista, os papéis rasgados e colados são uma marca histórica do seu trabalho, que, ao lado de fotografias de objetos significantes, “formam uma transparência muito grande; a soma do interior metafórico com o interior verdadeiro, o sentido com a visualidade, a paisagem, os elementos culturais, o real”.

Em “Porta-Retratos”, Mário Arreguy expõe a intensa emoção que desperta o contato com uma cena, uma pessoa lembrada, um objeto marcante, cheio de história. Tudo isso circundado por uma decoração especial, um art noveau, “carinhoso”. E muito próximo de Belo Horizonte, onde vive o artista.

São lugares onde sempre vai ou para onde retorna, que viram colagens, pinturas e xerografias, como o lugarejo na subida do Caraça, onde as janelas têm um triângulo na parte superior”, que resultou na obra “Janelas de Brumal”. Ou um trabalho de restauração, quando fotografou um cálice arqueológico em estanho, próximo a Barão de Cocais, no meio da Serra da Gandarela com que criou “Estanho do Arraial do Socorro”.

Por isso, “Porta-Retratos” também tem um ar intimista. E tem o “Candelabro de Itabira”, cuja igreja precisou fotografar. Tem barrados pintados de Itaverava com uma igreja do século XVIII, próxima a Conselheiro Lafaiete, no vale do rio Piranga, do ciclo do ouro. Enfim, são lugares fora do circuito, que também convivem com o abandono ou estão fora de moda e guardam a poesia que a obra do artista vem resgatar, valorizar.

Em meio às memórias que o artista revolucionou, um dado novo: a pintura, considerada por Mário Arreguy mais complexa, elaborada. Ele, que também é professor e sempre foi “mais pintor de abstrações”, agora dedica-se às figurações com seus contrastes de luz e sombra, gradações cromáticas e até uma palheta mais apurada. Uma nova fase, um desafio. Um trabalho mais lento, mais cuidadoso. “Mas a potência poética das colagens tem que aproveitar na pintura; mais expansiva do que intimista, como são as colagens”, justifica.

“Porta-Retratos” está em Tiradentes onde, desde 1994, Mário Arreguy ministra curso na oficina de pintura, que acontece anualmente durante o Inverno Cultural da Funrei. A partir dessa cidade, que guarda muita história de Minas Gerais, o artista quer mostrar seu trabalho em Juiz de Fora e, no final do ano, em Belo Horizonte. Em Tiradentes, “Porta-Retratos” pode ser apreciada na Galeria Sobrado Ramalho, no prédio do Iphan, na rua da Câmara,124. A exposição permanece aberta até dia 28.

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